sexta-feira, 24 de Abril de 2009

INTERMITÊNCIAS



São os momentos de paz em que nada desejas. A paz é um controverso estado de espírito que te assola. Não sabes viver com ela, o teu íntimo não se comisera com o que tens. Será a insatisfação o fruto do capricho, sede de infinito? Estigmatizas-te, escondes-te de permeio onde o teu olhar escamoteia o que nunca revelarás. Alguma vez terás sabido o que de verdade desejavas? Amor? Sucessivos conceitos inopinados por outrem. A partilha equitativa de forças que sentes escorregar. Alguém ao teu lado, solidão encorajada, temores e sempre sem paz, só sombras adivinhadas para a torturarem, porque o teu espírito não sabe conviver com a paz. Alma infernal que quanto mais apertas, mais se te escapa entre os dedos… uma vida que ficará perdida? Os dias sucedem-se, nada voltará… vagabundeias nas imediações do que ainda não alcançaste, até quando? Que é feito da determinação? Do amanhã prometido? Da raiva que te fez sobreviver, quando pensaste que aquela ténue linha seria o limite? O que ainda impões naquelas sombras bruxuleantes que teimam em assolar-te? Talvez a resposta esteja ali, bem perto, aquilo que tocas, mas não vês...

sexta-feira, 3 de Abril de 2009

MESMO NO MEIO


No meio do silêncio descobres quem és, as misérias que escondes apenas dos outros. Que interessam as vãs opiniões que colhes nas fortuitas vozes desta vida. Conselhos gratuitos, avulsos, olhares sub-reptícios que encobrem sorrisos e ironias despeitadas. Onde estão os conselhos do coração? Aqueles que se lêem no olhar, aqueles que tu não pedes, mas que adivinhas na mão que alguém te estende. Colhe-os, flutua com eles, aperta essa mão, não a deixes escapar... elo de ligação com a realidade de que ainda não podes alhear-te...serpenteias, oscilas, misturas-te com a quididade universal, aquela que ainda não se desacreditou a teus olhos, poderosa, sublime, imponente abre-se perante o que gostarias de alcançar...

domingo, 8 de Março de 2009

LARANJA E PRATA



Aquela ténue linha que se esbate em laranja e prata, aquele tracejado celeste que não alcanças. Outrora acreditaste em tanto! Num estalar de dedos tudo era possível, o sonho, a ilusão, jamais materializados. Dias se sucedem, desencantos emergem, não consegues ignorar. Incomensurável fraqueza do género humano que leva a desistir, a amontoar patamares sem, no entanto, os consolidar. A diferença está no sonho, mesmo velado, que persiste, ou não? Anos arrastam-se e sentes a expectativa afundar-se, que é feito das âncoras de outrora? Provavelmente fundearam-se naquela ilusão, tão ténue agora, deglutida em diáfanos pauis de onde etéreos e pútridos mantos compactos se evolam… Ergues-te, enfrentas mais um dia, respiras, alegras-te apesar de tudo, estás viva, amanhã… quem sabe, talvez a primavera, a tua, te procure mais cedo…nos outonos desta existência…

domingo, 1 de Março de 2009

SUSSURROS CANTANTES



Tempos idos de primavera, cucos, pardais, popas esvoaçam nos meandros do que foste, do que tiveste, agora erguem-se como carrascos que atraiçoam o que ainda não consegues alcançar. Azuis e cinzentos oscilam, vacilas por momentos perdida numa qualquer fealdade que teima em ser o espectro ameaçador, mesmo ali… ao virar da esquina. Erguem-se muros entre ti e as expectativas almejadas, tanta insatisfação dói, faz doer a alma, mas por outro lado, de tão igual a si própria… sabes que aí ainda não reside a traição, franzes o sobrolho, sacodes os ombros…talvez noutro dia…

segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

MANTA DE RETALHOS


Esmiúça-se a gangrena que te corrompe a mente, abre-se a imponência do que te circunda, montes e vales que contigo perpetuam a verdade do que deve preencher os teus momentos de vãs obsessões, vai-se o pontual e o volátil, fica o que deve fundear uma alma que se quer na perenidade dos seus valores. Verdes, castanhos, azuis, elementos primitivos que água e fogo não consomem, absorvem por instantes a mente que tu queres eternizar, seguras-te a eles, sentes por momentos o terreno firme que não queres abandonar, dar-se- á o caso de ele poder abandonar-te? É tudo tão transitório, pequeno grão de areia numa galáxia onde te sentes por vezes um ser abnóxio… tens o momento, esfumam-se outras vontades, outras circunstâncias que não sabes se são, se estão, ou alguma vez estarão ou porventura serão…

domingo, 15 de Fevereiro de 2009

EM NOME DA VANGLÓRIA


Ouvem apenas o eco das suas próprias palavras, encerrados na jactância do que pensam possuir, corporiza-se o filme do realizador mais sábio, a vanglória de mandar equipara-se à peste, à devassidão leprosa dos tempos que correm. Entretêm-se com o que pensam possuir, incautos, cegos pela pompa, jamais a sensatez será a “viseira com elmo de ouro”, a moderação, a frugalidade, a verdadeira sabedoria anda arredia destas paragens. Filosofam olhando em volta, com certeza sem ver, sim a capacidade que cada vez mais se vai perdendo para dar lugar à bazófia recorrente, ver… a palidez dos rostos massacrados, os olhares sem brilho, os pulmões aos quais o afluxo de oxigénio rareia impiedoso. Mordes os lábios, sentes que não podes mais, pensas no percurso que percorreste, pensas no que ainda tens para percorrer, deténs-te…no horizonte, tão longe dali…os rostos da felicidade, incandescentes, irradiam o que ainda queres alcançar, o que ainda tens para transmitir, projectar… seguras-te, apoias-te, um momento apenas…

domingo, 1 de Fevereiro de 2009

EXCEPÇÃO

Não se enquadra no espírito que presidiu à abertura deste blogue, mas sim no do anterior e para isso foi escrita, não obstante, não poderia deixar de a publicar. Segue-se a estória...
Manel Pavão

Da galeria de personagens que povoaram a minha adolescência, ressurge Manel, de sua alcunha Pavão, por gostar de fazer sobressair os seus dotes, pintar de mil cores e profusões as suas potencialidades, apresentando mesmo as mais banais e carcomidas como grandes dotes de deus, pai do céu.
Manel havia nascido na Venezuela, nas traseiras do prédio onde a mãe trabalhava, porque nem deu tempo de chegar ao hospital. Ele costumava brincar e regozijar-se, dizendo que logo aí nasceu com o rabo para o céu, por isso era uma espécie de eleito, destinado a algo de glorioso que não estaria ao alcance do comum dos mortais.
Como muitos outros emigrantes portugueses na Venezuela, quiseram os reveses da fortuna que os seus pais conseguissem a sua própria padaria, mas anos mais tarde o veloz e traiçoeiro fatum, que se pronunciou numa doença do pai, fez com que este tivesse de se desfazer da padaria, voltando para Portugal com a família, algum dinheirito, uma reformazita e como o vulgo diz “uma mão à frente outra atrás”. Manel tinha um irmão mais velho, Nelito, um mocito macilento que dizia ter olho para o negócio e prometia restaurar o orgulho do pai.
Os dois rapazes cresceram à sombra da amargura do pai, de recriminações, de orgulho ferido, então não era que todos vinham da Venezuela em ponto de constituir o seu próprio negócio? Porque não ele? Porque era bom pai, viu-se doente e pensou em regressar para proteger os filhos, se não fosse por eles tinha arriscado e ficaria por lá. Os rapazes cresceram na ombreira destas lamentações, a mãe calava-se, fazia o seu papel de esposa assertiva, circunspecta, submissa.
Manel, numa ânsia desesperada de fustigar as invectivas paternas, apresentava-se aos amigos como um semi-deus. Aquilo é que era lá na Venezuela, só gajas boas e oferecidas, as mais quentes. Mulherio não lhe faltava. E oportunidades de fazer dinheiro? Isso era o que mais havia. Pena foi o pai o ter obrigado a vir embora, caturra o velho, o afecto à família falou mais alto, afinal era um homem de valores, ele. No meio de muita prosápia, até parecia que Manel tinha um jeitito para o futebol, muito amador, verdade seja dita, mas começaram a chegar convites para jogar em clubes regionais. O Pavão lá ia, metamorfoseava-se de mil prospecções, trejeitos, semblantes, esgares. Suava, gesticulava, mas acabava sempre por aterrar em campos pelados ou de terra batida e tudo o que engolia era uma poeira esfusiante que lhe dilacerava as goelas e que se entranhava no seu corpo, enquanto mastigava as palavras muito pouco inócuas do pai. Por esse tempo, Nelito trabalhava num stand de automóveis onde, através do leasing e de palavras muito cristalinas, prometia um carro para todos. As noites de Manel e Nelito eram diametralmente opostas. Apenas partilhavam o quarto. O primeiro, com as suas conversas de futebóis e promessas de em breve jogar a nível de um dos grandes ou de um clube internacional, com o seu jeito efusivo, o seu modo perfumado de ser e de vestir, onde investia tudo o que recebia de luvas, acabava sempre a noite nos braços da gaja mais boa da discoteca, da mais decotada, da mais fogosa. O segundo, se queria uma mulher com as mesmas características, ia para o Porto para um certo clube nocturno, esfalfar-se a pagar bem caro por isso. Um dia, estalou o escândalo, Nelito teve de fugir para a Venezuela. O pai, antes da síncope cardíaca ainda teve tempo de accionar contactos antigos. A polícia andava atrás do rapaz, logo o mais certinho, o mais recatado, o mais caladinho! Havia marosca no stand. Pessoas que aí tinham comprado carros e motas andava a ser notificadas por falta de pagamento e estes haviam de ser apreendidos para ser penhorados e pagar as dívidas. Nelito andava a desviar o dinheiro daqueles que nele haviam confiado e haviam comprado as suas viaturas por leasing. Ele, como intermediário abotoava-se com o dinheiro das prestações, este não chegava à empresa credora que instigava os seus clientes por falta de pagamento.
Entretanto, Manel somava e seguia. Virara-se agora para boazonas ricaças. Mulheres casadas ou não, predispostas a sustentar um homem de palavreado, charmoso, galante, perfumado, preparado para dar prazer, mas de mãos e bolsos vazios. Quando andou uns tempos manco, dizia-se que fora um pé mal colocado numa janela por onde teve de escapar à fúria de um marido ciumento. Elas ofereciam-lhe roupas, perfumes, viagens. As cantigas de maldizer do povo caíram em casa de um velho já sincopado e de uma mulher impotente para lidar com tudo aquilo para que não foi preparada, porque no seu tempo não estavam divulgados esses caprichos.
Novas de Manel? Ouvi dizer que casou com a dona de uma marisqueira elegante e que agora, às ordens da mulher, toma conta do bar onde prepara as bebidas com um esgar de orelha a orelha e, no caso dos clientes mais fiéis, tempera os seus serviços com uma estória jocosa, que pode bem meter ali o Zé da esquina…