Não se enquadra no espírito que presidiu à abertura deste blogue, mas sim no do anterior e para isso foi escrita, não obstante, não poderia deixar de a publicar. Segue-se a estória...
Manel Pavão
Da galeria de personagens que povoaram a minha adolescência, ressurge Manel, de sua alcunha Pavão, por gostar de fazer sobressair os seus dotes, pintar de mil cores e profusões as suas potencialidades, apresentando mesmo as mais banais e carcomidas como grandes dotes de deus, pai do céu.
Manel havia nascido na Venezuela, nas traseiras do prédio onde a mãe trabalhava, porque nem deu tempo de chegar ao hospital. Ele costumava brincar e regozijar-se, dizendo que logo aí nasceu com o rabo para o céu, por isso era uma espécie de eleito, destinado a algo de glorioso que não estaria ao alcance do comum dos mortais.
Como muitos outros emigrantes portugueses na Venezuela, quiseram os reveses da fortuna que os seus pais conseguissem a sua própria padaria, mas anos mais tarde o veloz e traiçoeiro fatum, que se pronunciou numa doença do pai, fez com que este tivesse de se desfazer da padaria, voltando para Portugal com a família, algum dinheirito, uma reformazita e como o vulgo diz “uma mão à frente outra atrás”. Manel tinha um irmão mais velho, Nelito, um mocito macilento que dizia ter olho para o negócio e prometia restaurar o orgulho do pai.
Os dois rapazes cresceram à sombra da amargura do pai, de recriminações, de orgulho ferido, então não era que todos vinham da Venezuela em ponto de constituir o seu próprio negócio? Porque não ele? Porque era bom pai, viu-se doente e pensou em regressar para proteger os filhos, se não fosse por eles tinha arriscado e ficaria por lá. Os rapazes cresceram na ombreira destas lamentações, a mãe calava-se, fazia o seu papel de esposa assertiva, circunspecta, submissa.
Manel, numa ânsia desesperada de fustigar as invectivas paternas, apresentava-se aos amigos como um semi-deus. Aquilo é que era lá na Venezuela, só gajas boas e oferecidas, as mais quentes. Mulherio não lhe faltava. E oportunidades de fazer dinheiro? Isso era o que mais havia. Pena foi o pai o ter obrigado a vir embora, caturra o velho, o afecto à família falou mais alto, afinal era um homem de valores, ele. No meio de muita prosápia, até parecia que Manel tinha um jeitito para o futebol, muito amador, verdade seja dita, mas começaram a chegar convites para jogar em clubes regionais. O Pavão lá ia, metamorfoseava-se de mil prospecções, trejeitos, semblantes, esgares. Suava, gesticulava, mas acabava sempre por aterrar em campos pelados ou de terra batida e tudo o que engolia era uma poeira esfusiante que lhe dilacerava as goelas e que se entranhava no seu corpo, enquanto mastigava as palavras muito pouco inócuas do pai. Por esse tempo, Nelito trabalhava num stand de automóveis onde, através do leasing e de palavras muito cristalinas, prometia um carro para todos. As noites de Manel e Nelito eram diametralmente opostas. Apenas partilhavam o quarto. O primeiro, com as suas conversas de futebóis e promessas de em breve jogar a nível de um dos grandes ou de um clube internacional, com o seu jeito efusivo, o seu modo perfumado de ser e de vestir, onde investia tudo o que recebia de luvas, acabava sempre a noite nos braços da gaja mais boa da discoteca, da mais decotada, da mais fogosa. O segundo, se queria uma mulher com as mesmas características, ia para o Porto para um certo clube nocturno, esfalfar-se a pagar bem caro por isso. Um dia, estalou o escândalo, Nelito teve de fugir para a Venezuela. O pai, antes da síncope cardíaca ainda teve tempo de accionar contactos antigos. A polícia andava atrás do rapaz, logo o mais certinho, o mais recatado, o mais caladinho! Havia marosca no stand. Pessoas que aí tinham comprado carros e motas andava a ser notificadas por falta de pagamento e estes haviam de ser apreendidos para ser penhorados e pagar as dívidas. Nelito andava a desviar o dinheiro daqueles que nele haviam confiado e haviam comprado as suas viaturas por leasing. Ele, como intermediário abotoava-se com o dinheiro das prestações, este não chegava à empresa credora que instigava os seus clientes por falta de pagamento.
Entretanto, Manel somava e seguia. Virara-se agora para boazonas ricaças. Mulheres casadas ou não, predispostas a sustentar um homem de palavreado, charmoso, galante, perfumado, preparado para dar prazer, mas de mãos e bolsos vazios. Quando andou uns tempos manco, dizia-se que fora um pé mal colocado numa janela por onde teve de escapar à fúria de um marido ciumento. Elas ofereciam-lhe roupas, perfumes, viagens. As cantigas de maldizer do povo caíram em casa de um velho já sincopado e de uma mulher impotente para lidar com tudo aquilo para que não foi preparada, porque no seu tempo não estavam divulgados esses caprichos.
Novas de Manel? Ouvi dizer que casou com a dona de uma marisqueira elegante e que agora, às ordens da mulher, toma conta do bar onde prepara as bebidas com um esgar de orelha a orelha e, no caso dos clientes mais fiéis, tempera os seus serviços com uma estória jocosa, que pode bem meter ali o Zé da esquina…